segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Monólogos com o meu Bispo - na fé e na vida (5)

Uma Igreja mais inclusiva e decididamente mais laica...

Meu caro Bispo, D. António Marcelino.

Ao ler o seu artigo desta semana no Correio do Vouga (“Leigos, uma novidade conciliar?”) não podia ter encontrado, nas suas palavras, uma concordância quase que plena sobre a minha perspectiva sobre o papel dos leigos na missão evangelizadora da Igreja (e na sua estrutura) e a importância que o documento conciliar destaca ao apostolado laical.
Permita-me o destaque ainda para a sua referência (em “Olhos na Rua… A porta estreita que devia ser larga”):
“Dói ver como se põem de lado leigos que apresentam novas iniciativas apostólicas, dão sugestões em grupos e em conselhos de que são membros, mostram a sua discordância ante decisões que saem apenas de uma cabeça…
Outros são marginalizados também porque optam por trabalhar em organizações profissionais ou até partidos políticos em vez de movimentos de Igreja…
Dói, por se teimar, fora do tempo e ao arrepio do mesmo, em conservar uma Igreja fechada e sem futuro. Uma Igreja clerical. Quanto falta ainda para que o Vaticano II esteja cumprido de modo a ser, com uma Igreja renovada, sinal de esperança e de tempos novos?!”
Acrescentado ainda, destacado da parte final do seu artigo (agora é que há quem vá pular das cadeiras ou sofás…):
“Vê-se ainda a dificuldade sentida por muitos leigos no campo que lhes é próprio, devido ao domínio do poder clerical, que aprecia os que trabalham no templo e retira para aí alguns preparados e necessários nas tarefas profanas. Por outro lado, vemos a tentação de fomentar nos leigos uma espiritualidade de cariz clerical ou monacal, fazendo com que alguns, mais formados e informados, reajam a tal orientação.”
Em relação a esta realidade, de facto, falta muito à aplicabilidade, à vivência “mundana” do Concílio Vaticano II. Falta muito a uma capacidade da Igreja se abrir ao mundo e à sua razão existencial: os homens.
Neste aspecto, a segunda leitura da Eucaristia de domingo passado (9 de setembro, 23º Domingo do Tempo Comum - Epístola de São Tiago, 2,1-5) é de uma assertividade extrema neste campo. O Apóstolo Tiago questiona precisamente a forma como olhamos o outro, quando damos mais valor ao “ter” do que ao “ser”, quando nos guiamos e valorizamos as aparências (“A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés».”)
Não é esta a realidade que se vive na Igreja quando se trata de escolher, de acolher, de responsabilizar?
Meu caro Bispo, quando refere que “os campos de acção apostólica do leigo estão ligados ao que é específico da sua vida: família e educação, meio social, trabalho, convivência e participação cívica”, será legítimo limitarmos o contributo, a vocação, o conhecimento, a capacidade de trabalho, a própria fé, à responsabilidade laical apenas aos “casados, solteiros ou viúvos”? Porque não têm assento no espaço comunitário os divorciados, os separados, os ex-condenados, os ex-presos, aqueles a quem a vida, em determinado momento, por mil e uma razões, traçou caminhos difíceis de contornar, apesar de afastados da mensagem do Pai?! Porque é que a Igreja tem de ser tão exclusiva e tão afastada da realidade plenamente inclusiva da mensagem de Cristo.
Tal como termina a passagem da Epístola de São Tiago: “Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam?”
Uma Igreja de Todos, para Todos e com Todos é, definitivamente, uma Igreja mais consistente, mais rica e mais Evangelizadora.
Aliás, como, pelo menos dominicalmente, repetimos: Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Monólogos com o meu Bispo - na fé e na vida (4)

O sentido das coisas... 
Meu caro Bispo D. António Marcelino

Estava para me referir à questão da educação e das escolas católicas, mas o Evangelho da celebração eucarística deste Domingo (22º Domingo do tempo comum) suscitou-me outro tipo de reflexão que gostaria de partilhar.
A passagem do Evangelho segundo S. Marcos (Mc 7,1-8.14-15.21-23) revela-nos duas mensagens fortes.
A primeira mensagem refere-se à importância do nosso interior, daquilo que valemos por dentro, a capacidade que temos para deixar-nos invadir pelo Espírito Santo e pela mensagem de Cristo. Muito mais importante do que a que damos demasiadas vezes, excessivas até, ao exterior, às aparências, às falsas imagens e realidades.
A segunda, a que me levou a escrever estas linhas, tem a ver com a questão das tradições, da lei (Torah), das regras, dos mandamentos (o Decálogo de Moisés), etc. Mais próximo dos nossos tempos, esta segunda questão poderá ter a ver com os ritos, com os procedimentos, com o catecismo, com os costumes, com o próprio Código de Direito Canónico, com as Encíclicas, com os Concílios.
E neste campo, recordo os seus textos, publicados no Correio do Vouga, em que dissecou vários aspectos relacionados com o Concílio Vaticano II, neste seu quinquagésimo aniversário.
Tenho alguma dificuldade em decidir entre a necessidade de um novo Concílio ou a aplicabilidade, a vivência prática, do Concílio Vaticano II (mesmo que com necessárias readaptações). Mas há uma certeza que tenho. A Igreja, seja a clerical, a laica, a estrutural ou a missionária, tem uma necessidade urgente de se renovar e de se reestruturar.
Tal como a segunda imagem que tenho do Evangelho de S. Marcos, parece-me ser fundamental que a Igreja se renove, repense as suas tradições e ritos. Se torne mais viva e mais perto da sua missão evangelizadora. No fundo, que se torne mais próxima dos crentes e das pessoas.
Basta olhar para alguns exemplos para se perceber esta realidade, meu caro Bispo. Que sentido se dá ao Baptismo, à primeira-Comunhão, ao sacramento do Crisma? Por uma questão social, para se poder ser padrinho ou madrinha no futuro, para não se ter “chatices” com o Pároco na altura do casamento?
Mesmo na divisão mais simples da Eucaristia, nas duas partes principais (Liturgia da Palavra e Rito Sacramental) questiono-me quantos dos que se deslocam à “Casa do Senhor” perceberão o seu significado e que sentido tem para as nossas vidas? Quantos não repetem, semanalmente, rito após rito, decorados ao sabor de uma catequese instrutiva e não educativa ou formativa, sem a noção do significado concreto de cada acto.
E não é só em relação aos crentes. O próprio clero transmite esta imagem de vazio da ritualidade e da espiritualidade que lhe está inerente. Por exemplo, a Liturgia da Palavra (a dominical, principalmente) tem duas leituras (antigo testamento e novo testamento excluindo os evangelhos), um salmo responsorial e uma passagem do Evangelho. São raras as homilias em que se realça o Salmo e, embora não tão raramente, são muito poucas as homilias que transmitem alguma mensagem da leituras. Normalmente, apenas é realçado o Evangelho. Daí que no final de cada Eucaristia seja lógico que a memória das pessoas se fixe no Evangelho e esqueça todas as outras leituras.
Por último, parece-me que é chegada a altura da Igreja rever muito da sua ritualidade, repensar a espiritualidade inerente a muitos dos actos e ritos.
Tal como o Evangelho deste 22º Domingo do Tempo Comum nos transmite o mais importante é o que se sente, o que se vive, a interioridade. Mais importante que o que se repete, o que se faz, o vazio dos actos.
Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

sábado, 1 de setembro de 2012

22º Domingo do Tempo Comum (2 setembro)

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B
Tema do 22º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum propõe-nos uma reflexão sobre a “Lei”. Deus quer a realização e a vida plena para o homem e, nesse sentido, propõe-lhe a sua “Lei”. A “Lei” de Deus indica ao homem o caminho a seguir. Contudo, esse caminho não se esgota num mero cumprimento de ritos ou de práticas vazias de significado, mas num processo de conversão que leve o homem a comprometer-se cada vez mais com o amor a Deus e aos irmãos.
A primeira leitura garante-nos que as “leis” e preceitos de Deus são um caminho seguro para a felicidade e para a vida em plenitude. Por isso, o autor dessa catequese recomenda insistentemente ao seu Povo que acolha a Palavra de Deus e se deixe guiar por ela.
A segunda leitura convida os crentes a escutarem e acolherem a Palavra de Deus; mas avisa que essa Palavra escutada e acolhida no coração tem de tornar-se um compromisso de amor, de partilha, de solidariedade com o mundo e com os homens.
No Evangelho, Jesus denuncia a atitude daqueles que fizeram do cumprimento externo e superficial da “lei” um valor absoluto, esquecendo que a “lei” é apenas um caminho para chegar a um compromisso efectivo com o projecto de Deus. Na perspectiva de Jesus, a verdadeira religião não se centra no cumprimento formal das “leis”, mas num processo de conversão que leve o homem à comunhão com Deus e a viver numa real partilha de amor com os irmãos.
(fonte: conferência episcopal portuguesa)

I LEITURA – Dt 4,1-2.6-8 (Leitura do Livro do Deuteronómio)
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 14 (15)
II LEITURA – Tg 1,17-18.21-22.27 (Leitura da Epístola de São Tiago)
EVANGELHO – Mc 7,1-8.14-15.21-23 (Evangelho segundo São Marcos)

sábado, 25 de agosto de 2012

21º Domingo do Tempo Comum (26 agosto)

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B
Tema do 21º Domingo do Tempo Comum

A liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum fala-nos de opções. Recorda-nos que a nossa existência pode ser gasta a perseguir valores efémeros e estéreis, ou a apostar nesses valores eternos que nos conduzem à vida definitiva, à realização plena. Cada homem e cada mulher têm, dia a dia, de fazer a sua escolha.
Na primeira leitura, Josué convida as tribos de Israel reunidas em Siquém a escolherem entre “servir o Senhor” e servir outros deuses. O Povo escolhe claramente “servir o Senhor”, pois viu, na história recente da libertação do Egipto e da caminhada pelo deserto, como só Jahwéh pode proporcionar ao seu Povo a vida, a liberdade, o bem estar e a paz.
Na segunda leitura, Paulo diz aos cristãos de Éfeso que a opção por Cristo tem consequências também ao nível da relação familiar. Para o seguidor de Jesus, o espaço da relação familiar tem de ser o lugar onde se manifestam os valores de Jesus, os valores do Reino. Com a sua partilha de amor, com a sua união, com a sua comunhão de vida, o casal cristão é chamado a ser sinal e reflexo da união de Cristo com a sua Igreja.
O Evangelho coloca diante dos nossos olhos dois grupos de discípulos, com opções diversas diante da proposta de Jesus. Um dos grupos, prisioneiro da lógica do mundo, tem como prioridade os bens materiais, o poder, a ambição e a glória; por isso, recusa a proposta de Jesus. Outro grupo, aberto à acção de Deus e do Espírito, está disponível para seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida; os membros deste grupo sabem que só Jesus tem palavras de vida eterna. É este último grupo que é proposto como modelo aos crentes de todos os tempos.
(fonte: conferência episcopal portuguesa)

LEITURA I – Jos 24,1-2a.15-17.18b (Leitura do Livro de Josué)
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 33 (34)
LEITURA II – Ef 5,21-32 (Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios)
EVANGELHO – Jo 6,60-69 (Evangelho segundo São João)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Monólogos com o meu Bispo - na fé e na vida (3)

Papel social (e político) da Igreja, hoje...

Meu caro Bispo, D. António Marcelino.

Temos vindo a referir a importância da Igreja repensar o seu papel evangelizador, a necessidade de se reestruturar como comunidade de Cristo e em Cristo (seja do ponto de vista clerical, seja no envolvimento dos leigos).
Ao contrário do que D. José Policarpo afirmou, em junho passado, em Fátima, na divulgação das jornadas pastorais dos bispos católicos sobre a reflexão dos 50 anos do Concílio Vaticano II – “A Igreja não tem que andar ao ritmo da mudança do Mundo”, entendo que a Igreja tem por missão (dever e obrigação) andar à frente das mudanças do mundo, sob pena de não dar resposta a muitas das solicitações, anseios e preocupações dos seus crentes. De correr o risco de deixar de ser referência para muitos dos católicos e afastá-los da vivência na Fé.
Isto não significa que a mensagem, como refere D. José Policarpo, perene de Cristo tenha deixado de ter valor ou esteja desvirtuada. Entendo precisamente o contrário. Aliás, entendo que não é preciso um novo concílio, bastando para isso que o Concílio Vaticano II (em todos os seus documentos) seja definitivamente aplicado e vivido na plenitude, com as devidas adaptações que 50 anos de muitas mudanças provocaram na sociedade e na Igreja.
Acho que a mensagem de Cristo e da Igreja, actualizada e adaptada aos desafios que o Mundo lança, cada vez mais, de forma insistente e premente, só fortalece o sentido missionário e evangelizador dos valores cristãos. Nomeadamente no que respeita ao papel (também) social que a Igreja desenvolve no seio das comunidades em todo o mundo. E atrever-me-ia a acrescentar ao papel social e político (não partidário, entenda-se) da Igreja na sociedade de hoje.
E reforço a questão social e política da Igreja porque ela é, cada vez mais, importante e tem sido uma referência constante. Mesmo que, face à realidade económica, social e cultural que hoje vivemos, ela preconize alguns dos princípios de esquerda, porque a Igreja, de facto, na sua vertente social é uma Igreja de “esquerda” (e não me refiro apenas à “alcunha de bispo vermelho” do Bispo Emérito de Setúbal, D. Manuel Martins), isto por mais que custe aos seus crentes defensores de uma economia liberal ou, até, neo-liberal.
Se no aspecto dogmático a Igreja está distante de qualquer conceito político (e deve estar), no que respeita à sua missão evangelizadora ela, como Cristo, “vive” para os que pecam, que não encontram o caminho de Cristo, para os “tresmalhados”… mas igualmente para os oprimidos, para os que sofrem, para os que são espezinhados, para os mais desfavorecidos, para os pobres, para os explorado.
Aliás, nestes últimos dois meses têm sido evidentes estes sinais de intervenção social e política (mesmo que a título individual, embora ninguém se possa desassociar da sua condição clerical) por parte de vários prelados portugueses.
As “hostilidades”, as denúncias, as críticas, o exame de consciência, foram iniciadas com as polémicas declarações de D. Januário Torgal Ferreira, apesar de entender que foi mais o excesso que a razoabilidade ao não apontar e explicitar os factos (já para não dizer: “ao não denunciar a quem de direito”): “Eu não acredito nestes tipos, em alguns destes tipos, porque são equívocos, porque lutam pelos seus interesses, porque têm o seu gangue, porque têm o seu clube,porque pressionam a comunicação social, o que significa que os anteriores, que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer”.
Já D. Manuel Martins, em relação ao novo Código do Trabalho (que entro em vigor no passado dia 1 de agosto), afirma que é urgente uma mudança de atitude e, até mesmo, uma “explosão de rua”. O Bispo Emérito de Setúbal, sempre muito próximo desta missão social da Igreja, critica a reforma laboral como espelho de uma sociedade cada vez mais materialista e de uma sociedade cada vez mais desumana, quer em Portugal, quer na Europa: “Nós sabemos que o grande deus desta Europa é realmente o deus dinheiro encarnando isso na Alemanha. Mas é a Alemanha, o sistema bancário, os grandes ricos que movem o mundo. Esse Código do Trabalho é uma emanação perfeita desse deus dinheiro, desse deus capitalista que manda no mundo e que engorda à custa do emagrecimento dos outros”.
Também D. Jorge Ortiga, no festival da Juventude, lançou fortes críticas ao poder político actual, condenando a incapacidade deste em saber responder à crise que o país atravessa: “Para eles [os políticos], muitas vezes e quase sempre, vale apenas o bem-estar pessoal ou, quanto muito, do seu grupo ou partido”. Aliás, o Arcebispo de Braga e Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, pouco depois defenderia ainda um outro caminho para a saída da crise por recear que os cidadãos, as famílias e as empresas não consigam aguentar mais medidas de austeridade, questionando mesmo se uma política centrada em medidas de austeridade será o único caminho para o país sair da crise: “O povo português está demasiado sobrecarregado. Diariamente, assistimos ao aumento do custo da água, da electricidade, dos transportes, da restauração e isto torna o rosto de Portugal um pouco sombrio”. Para acrescentar ainda:Será este o único caminho? Interrogo-me muitíssimas vezes. Penso que talvez não seja.Agora, se o caminho é o de renegociar ou agir de outra maneira, é inventar formas de uma nova economia que proporcionem um outro desenvolvimento, uma capacidade de resposta aos reais problemas, penso que isso é absolutamente necessário”.
É esta a Igreja missionária, não só evangelizadora, mas crítica e atenta à sociedade e que dá respostas concretas às necessidades dos seus crentes. É esta a pastoral social que emana da mensagem de Cristo, que desceu dos céus para cuidar dos que sofrem, dos que pecam, dos doentes, dos pobres e dos desprotegidos.
É esta também a Igreja que, contrariando a expressão de D. José Policarpo, se preocupa e se adapta às novas realidades sem deixar de condenar, como refere D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu, uma sociedade portuguesa cada vez mais desigual: “A construção da justiça tem que partir sempre daqueles que estão numa situação de privilégio, do facto de reconhecerem que a justiça passa por partilhar com aqueles que não têm ou têm menos”.
Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

20º Domingo do Tempo Comum (19 agosto)

Tema do 20º Domingo do Tempo Comum (ano B)

A liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum repete o tema dos últimos domingos: Deus quer oferecer aos homens, em todos os momentos da sua caminhada pela terra, o “pão” da vida plena e definitiva. Naturalmente, os homens têm de fazer a sua escolha e de acolher esse dom.
A primeira leitura oferece-nos uma parábola sobre um banquete preparado pela “senhora sabedoria” para os “simples” e para os que querem vencer a insensatez. Convida-nos à abertura aos dons de Deus e à disponibilidade para acolher a vida de Deus (o “pão de Deus que desce do céu”).
A segunda leitura lembra aos cristãos a sua opção por Cristo (aquele Cristo que o Evangelho de hoje chama “o pão de Deus que desceu do céu para a vida do mundo”). Convida-os a não adormecerem, a repensarem continuamente as suas opções e os seus compromissos, a não se deixarem escorregar pelo caminho da facilidade e do comodismo, a viverem com empenho e entusiasmo o seguimento de Cristo, a empenharem-se no testemunho dos valores em que acreditam.
No Evangelho, Jesus reafirma que o objectivo final da sua missão é dar aos homens o “pão da vida”. Para receber essa vida, os discípulos são convidados a “comer a carne” e a “beber o sangue” de Jesus – isto é, a aderir à sua pessoa, a assimilar o seu projecto, a interiorizar a sua proposta. A Eucaristia cristã (o “comer a carne” e “beber o sangue” de Jesus) é um momento privilegiado de encontro com essa vida que Jesus veio oferecer.
(fonte: conferência episcopal portuguesa)

I LEITURA – Prov 9,1-6 (leitura do Livro dos Provérbios)
SALMO RESPONSORIAL – Salmo 33 (34)
II LEITURA II – Ef 5,15-20 (leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios)
EVANGELHO – Jo 6,51-58 (evangelho segundo São João)

Monólogos com o meu Bispo - na fé e na vida (2)

Qual o maior desafio da Igreja?
No seu artigo “O maior desafio feito à Igreja” (publicado no Correio do Vouga em outubro de 2011) D. António Marcelino imagina-se a questionar os muitos cristãos, leigos e clérigos que poderia interpelar directamente, dos mais diferentes meios, idades e, eventualmente também, vivência e fé (mesmo que esta seja de complexa avaliação e quantificação) sobre qual seria o maior, mesmo o maior, o principal desafio que a Igreja enfrenta hoje. Face à dificuldade de interacção entre o papel de jornal e quem lê o artigo, D. António Marcelino menciona algumas das prováveis respostas que, com clara certeza, esperaria ouvir: a crise vocacional; o enfraquecimento da família; a falta de diálogo e de tolerância; a intervenção no mundo e nas culturas emergentes; as estruturas pastorais; o futuro dos jovens; acrescentando eu, face aos acontecimentos mais recentes no Vaticano, a imagem da estrutura da Igreja.
D. António Marcelino, não desvalorizando qualquer um destes aspectos, no seu entender revela-nos que o maior desafio (se estiver correcta a minha percepção e leitura do texto) da Igreja será a debilidade da fé e a sua expressão viva no dia-a-dia.
Como D. António Marcelino refere “não existem meios técnicos que permitam medir a autenticidade e a verdade da fé das pessoas”.
E ainda bem porque a fé não pode, nem deve ter um valor quantificável. Ela é expressão do caminho (interior e exterior) que cada um faz, que cada um tem a oportunidade de viver e partilhar. Como refere, a prova final será o julgamento divino no fim da nossa vida.
Mas pegando na “partilha” que referi, permita-me meu caro Bispo, denominar o que entendo ser o maior desafio da Igreja nos dias de hoje: a própria Igreja. A vivência de uma fé individualizada (mesmo que não quantificável e respeitada nas suas mais distintas manifestações) retira-lhe dimensão e expressão.
Uma fé que não se quer débil ou frágil, que se espera forte e consistente dia após dia, deve ser vivenciada em comunidade, em Igreja. Mas uma Igreja que tem de abrir os seus espaços, que tem de estar atenta aos sinais dos tempos, que deve estar à frente das necessidades e das solicitações dos seus crentes, que deve ser partilha, sentido de união, solidariedade, crítica, interventiva, e, acima de tudo, deve ser Missão de Cristo na sociedade que a envolve, nas famílias, no trabalho, no ensino, na política, na cultura e no desporto. Uma Igreja que, ao fim de 50 anos de Concílio Vaticano II, tal como o meu Bispo, referiu durante vários meses, em diversos artigos, tem de deixar de ser tão clerical, tão fechada, tão alheada dos verdadeiros problemas e desafios dos seus crentes… uma Igreja que se quer, teológica e verdadeiramente, de Libertação.
Se este desafio não for alcançado, se a missão evangelizadora da Igreja não estiver presente no nosso dia-a-dia iremos encontrar igrejas vazias, diminuição da participação nas comunidades, na estruturas, menos vocações, menos casamentos católicos, mais vivências individuais da fé em função das necessidades e dos momentos.

Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Intolerância gera violência

Não é apenas a violência que gera violência.
Também a falta de respeito pela diferença, pelas opções individuais (ou, neste caso, também colectivas) leva a uma violência intolerante.
Daí que no post anterior tenha alertado para a importância do saber defender os princípios e valores em que acreditamos sem a necessária condenação e crítica às opções de cada um. Deus tem o condão de salvar, perdoar e condenar. O Homem tem o dever de respeitar e tolerar.
Enquanto assim não for, vamos ter imensas "Nigérias" espalhadas pelo mundo fora, mesmo que à primeira vista a incapacidade de aceitar o outro resulte das coisas, aparentemente, mais insignificantes e pequenas.
Desde o início deste século XXI (2000), ao virarmos o segundo milénio de Cristo, na Nigéria já faleceram mais de três mil cristãos numa guerra sem tréguas motivada pela intolerância religiosa entre Muçulmanos e Cristãos.
Só este ano (seis primeiros meses) as vítimas são já cerca de 600, mortas devido à falta de aceitação do outro, nas suas diferenças e nas suas virtudes.
Daí que seja de saudar e glorificar o papel de missão, de coragem, de dedicação à Igreja por parte de D. John Olorunfemi Onaiyekan, arcebispo de Abuja, Nigéria.

Mobilização pelo (todo) casamento...

Esta semana, na quarta-feira, os católicos franceses mobilizaram-se e promoveram uma jornada de oração pelo casamento.
Até aqui nada de especial, antes pelo contrário. A iniciativa só mereceria todo o aplauso pela importância que a família tem para a Igreja e para a sociedade.
Mas quando se esperava que a preocupação fosse, de facto, a família, toda a atenção dos católicos franceses se centrou no casamento e na preocupação com o anúncio feito pelo Presidente francês, François Hollande de legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção de crianças por esses casais.
O que mais me interroga nestas situações é a preocupação de alguns sectores da Igreja com o que lhe é exterior, com a legítima vontade individual de cada ser humano (as suas opções, escolhas, princípios), principalmente quando estes, mesmo que colidindo com questões dogmáticas da Igreja, não interferem directamente nos princípios e valores. Seria eventualmente preocupante, isso sim, se a permissão do casamento entre pessoas do mesmo sexo se realizasse no seio da Igreja/Religião.
O que entendo que nos deveria preocupar enquanto Igreja, mais do que a condenação das liberdades individuais de cada um dos cidadãos, é a perda de identidade, a falta de capacidade de ser presença viva na sociedade, a ausência de novos processos de evangelização, a defesa da família enquanto estrutura basilar da sociedade.
E os dados são muito claros. Segundo o INE, em 201, registaram-se cerca de 36 mil casamentos (menos 4 mil que em 2010) e destes apenas cerca de 39% (pouco mais de 14 mil) são católicos. Isto quando em 2007 (5 anos atrás) a taxa situava-se bem perto dos 50%.
Isto é que deveria preocupar-nos enquanto Igreja, assim como a taxa de divórcios (dados de 2010) se situar perto dos 3%.
A valorização do papel da família, a sua preservação, a sua promoção deveriam ser uma das preocupações actuais, seja ao nível religioso, seja a nível social.
Mais do que a condenação do que são as escolhas e princípios tomados com a legitimidade da liberdade individual de opção tomadas por quem não comunga dos princípios e dos valores da Igreja.
Há muito cuidado e muita atenção aos problemas que nos rodeiam e muito pouco olhar para dentro das "nossas paredes e realidades".

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Hoje é dia... 19 anos!

15 de agosto de 1993. Sé catedral de Aveiro. Celebração presidida por D. António Marcelino.
Por vocação própria, por vontade pessoal, com o apoio da família, por graça do Espírito Santo e por desígnio de Deus, Manuel Araújo da Silva, o meu pai, era ordenado Diácono da Diocese de Aveiro e da Igreja (Católica, Apostólica, Romana).
Já lá vão 19 anos... com a força de Deus.
Beijo pai....

Assunção da Virgem Santa Maria... plenitude de salvação.

A Igreja celebra hoje, 15 de agosto, o dia da Assunção da Virgem Santa Maria.

(nota histórica - fonte: secretariado nacional da liturgia)
"Ao terminar a Sua missão na terra, Maria, a Imaculada Mãe de Deus, «foi elevada em corpo e alma à glória do céu» (Pio XII), sendo assim a primeira criatura humana a alcançar a plenitude da salvação.
Esta glorificação de Maria é uma consequência natural da Sua Maternidade divina: Deus «não quis que conhecesse a corrupção do túmulo Aquela que gerou o Senhor da vida».
É também o fruto da íntima e profunda união existente entre Maria e a Sua missão e Cristo e a Sua obra salvadora. Plenamente unida a Cristo, como Sua Mãe e Sua serva humilde, associada, estreitamente a Ele, na humilhação e no sofrimento, não podia deixar de vir a participar do mistério de Cristo ressuscitado e glorificado, numa conformação levada até às últimas consequências. Por isso, Maria é «elevada ao Céu em corpo e alma e exaltada por Deus como Rainha, para assim Se conformar mais plenamente com Seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte» (LG. 59).
Este privilégio, concedido à Virgem Imaculada, preservada e imune de toda a mancha da culpa original, é «Sinal» de esperança e de alegria para todo o Povo de Deus, que peregrina pela terra em luta com o pecado e a morte, no meio dos perigos e dificuldades da vida. Com efeito, a Mãe de Jesus, «glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há-de consumar no século futuro» (LG. 68).
O triunfo de Maria, mãe e filha da Igreja, será o triunfo da Igreja, quando, juntamente com a Humanidade, atingir a glória plena, de que Maria goza já.
A Assunção de Maria ao Céu, em corpo e alma, é a garantia de que o homem se salvará todo: também o nosso corpo ressuscitará! A Assunção de Maria é o penhor seguro de que o homem triunfará da morte!"
Esta dimensão de Mãe (de Cristo, da Igreja, de todos nós), de maternidade divina (a virgem que concebe Jesus pela graça do Espírito Santo), e a sua dimensão de serva de Deus (a sua capacidade de sofrimento, de participação no mistério do Reino e da Igreja, na sua capacidade de cumprir, sem mácula, os preceitos de Deus) deve servir como exemplo de vida, de entrega, de comunhão para todos os fiéis. Aliás, este alcance da plenitude e da presença junto da divina Trindade, sem qualquer tipo de desvalorização, mas parece-me revestida de uma importância acrescida em relação à celebração da Imaculada Conceição (a 8 de dezembro).

Mas neste dia, há ainda um dado que merece destaque e que foi muito bem referenciado pelo Pde. Fausto na celebração da Eucaristia na Sé de Aveiro (12.00 horas).
Numa altura em que nada está clarificado quanto à eventualidade de supressão de quatro feriados (civis e religiosos) não se percebe a inquietação e, nalgumas situações, a polémica ou indignação de muitos, no que respeita à supressão de dois feriados religiosos. Se os feriados não servirem para a celebração em Igreja da solenidade em causa, por exemplo a Assunção de Maria, de facto, seja em tempos de crise, seja noutro contexto qualquer, não faz sentido nenhum insistir nestes dias, quando os mesmo podem ser celebrados, por exemplo, no domingo. Tome-se por exemplo a celebração da Eucaristia, às 12.00 horas, na Sé, em Aveiro: durante a semana, ao final da tarde, deve haver missas com mais participação e afluência.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um interessante projecto...

Nos tempos que correm todos os processos de evangelização e de aproximação da Igreja à sociedade são sempre dignos e de enaltecer. Para mais quando, nos dias de hoje, num país que se diz estatisticamente católico, a verdade é que, na prática a "regra" vai cedendo lugar à "excepção".
No Algarve, apesar do sol, calor e praia (das férias) também pode haver lugar à partilha, ao diálogo e à oração... mesmo que à beira do mar.

Monólogos com o meu Bispo - na fé e na vida (1)

Repensar a Igreja paroquial...
Está em fase conclusiva (sensivelmente até setembro ou outubro) uma das partes do processo de reforma administrativa local, com a fusão/agregação de freguesias. Mesmo não sendo, de todo, um processo pacífico, a verdade é que ele caminha a passos largos para a sua implementação.
A sustentação de tal processo de reforma centra-se na possibilidade de dar escala, dimensão e mais competências ao poder local mais próximo dos cidadãos (freguesias), para além de uma questionável necessidade de redução de despesa.
O que seria igualmente interessante era que a Igreja portuguesa aproveitasse a medida para redefinir, não só o conceito, como também o mapa “administrativo” e geográfico das paróquias.
E há várias razões para tal:
1. Sendo a paróquia a base do mapa administrativo local, ao sustentar o surgimento do conceito de freguesia, faz todo o sentido que as paróquias se adaptem às novas realidades das freguesias.
2. Nos tempos em que vivemos, onde escasseiam recursos financeiros, onde faltam disponibilidade para o voluntariado e dedicação à comunidade, a multiplicidade de pequenas realidades torna o trabalho pastoral e social da Igreja mais complexo e difícil.
3. Com a falta de vocação sacerdotal a agregação de paróquias permite um melhor e mais eficaz aproveitamento dos recursos, nomeadamente dos “poucos” sacerdotes que existem.
4. Por último, com processos de desertificação de zonas do país, concretamente as do interior, mas mesmo em algumas zonas mais próximas do litoral, e com o aumento de população em comunidades mais urbanas e costeiras, é necessário (e, se calhar, urgente) que se repense o mapa das paróquias na Igreja.

Mas tal como diz D. António Marcelino em dois artigos publicados no Correio do Vouga nos finais do ano passado (“Freguesias e paróquias, um problema e uma oportunidade” e “Repensar para renovar as paróquias”), para além de todos estes elementos apontados (aos quais se juntam alguns dados estatísticos: 4368 paróquias, sacerdotes com várias paróquias a seu cargo pastoral, disparidade entre o número de habitantes e o número de paróquias, em vários arciprestados ou dioceses), há ainda um outro elemento que importa referir e valorizar neste processo. Esta seria igualmente uma excelente oportunidade para se reformar o papel das paróquias enquanto Igreja: seja pelo reforço do papel do pároco pelo seu ministério eucarístico ou seja pela valorização do papel dos leigos como impulsionadores das comunidades e dos valores do Evangelho (na família, no trabalho, no ensino, na sociedade). É chegada a altura para a Igreja questionar-se e perceber que este “é o momento para se entender que a Igreja de Cristo não é [só] clerical mas Igreja do Povo de Deus, nos seus carismas, movimentos e presença viva no mundo”.
Daí que a questão que D. António Marcelino levanta seja muito pertinente. Ao fim de tantos séculos é chegada a altura de alterar o paradigma e «em vez de perguntar “qual é a tua paróquia?” deverá ser questionado “qual é a tua comunidade de fé e de Eucaristia?”».
Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Monólogos com o meu Bispo – na fé e na vida


Por razões meramente pessoais (principalmente pelos meus quatro anos de passagem pela equipa do Secretariado Pastoral Juvenil) D. António Marcelino sempre foi o “meu” bispo. Isto não significa que não reconheça em D. António Francisco todo o valor como Bispo de Aveiro ou que desvalorize a sua missão (antes pelo contrário), mas a minha ligação com o bispo emérito sempre foi muito forte, com inegável estima, respeito e consideração.
Neste sentido, sempre que posso (e faço por isso) ler D. António Marcelino (seja na imprensa ou em publicações suas) é sempre com muita satisfação que o faço, mesmo que com sentido crítico.
Daí que tenha tomado a total liberdade, para não dizer uma ousadia (ou o desplante), em iniciar, neste meu espaço, um conjunto de opiniões sobre algumas reflexões de D. António Marcelino, às quais decidi denominar: “Monólogos com o meu Bispo – na fé e na vida”.
Que seja o que Deus quiser…

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

75 anos...

A Diocese de Aveiro celebra, em 2013, o seu 75º aniversário da restauração da Diocese.
A 20 de Maio, D. António Francisco, bispo de Aveiro, proferiu o anúncio da Missão Jubilar, na Festa das Famílias, em Calvão. (mensagem)

Toda a informação, passo-a-passo, pode ser consultada Aqui.

Começo...

A primeira mensagem, neste novo espaço, vai para os meus pais. Não só pelo facto de serem os meus pais (dádiva da vida, educação, etc...), mas porque, ao fim de vários anos, voltam a ser o Casal Responsável pelo sector B de Aveiro das Equipas de Nossa Senhora.

A eles o meu desejo de bom trabalho e de sucesso.

Magnificat!