terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sínodo dos Bispos- Inquérito online

Tal como referi na «"Epístola" de um crente ao seu Bispo (4)» o Papa Francisco enviou  a TODA a Igreja (e convida à sua participação) um documento preparatório, com um questionário com 39 perguntas, para servir de base de trabalho e informação para a III Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizará em Roma já no próximo ano (Outubro de 2014). O sínodo reflectirá sobre "Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização".
O Documento já há muito que é conhecido e, apesar do seu impacto e da sua relevância, não é novidade no período pré-preparatório de um sínodo. No entanto, é evidente, por inúmeras razões, entre as quais se destaca o carisma que o Papa Francisco tem demonstrado, que existe uma notória vontade dos católicos (e não só) participarem neste documento, concretamente na resposta ao questionário.
Pena que nem todas as dioceses, aliás, nem a própria Conferência Episcopal Portuguesa, permitam uma distribuição do documento e recolha de respostas, de forma célere e alargada.
No entanto há, neste momento, uma forma eficaz dos católicos o poderem fazer.
A Pastoral familiar do Patriarcado de Lisboa disponibiliza o documento, o inquérito, e acrescenta algumas questões que achou pertinentes para o debate dos inúmeros desafios que se colocam à família (directa ou indirectamente). Qualquer cidadão poderá, desta forma, participar e dar o seu contributo.
Todo o processo está disponível AQUI.

domingo, 17 de novembro de 2013

"Epístola" de um crente ao seu Bispo (4)

Porque a vida também se lê…
Caro D. António Francisco
Tal como referi na minha terceira “epístola” e aproveitando o facto de se ter realizado, esta semana, a assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, é altura para falar sobre o Documento Preparatório da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos: “Desafios Pastorais da Família no contexto da Evangelização”. Não sei se conseguirei ser suficientemente curto, face à complexidade do tema, mas vou tentar.
Não surpreende (a não ser aos mais cépticos e distraídos) esta disposição do Papa Francisco para ouvir a Igreja e os Movimentos antes da realização dos Sínodos dos Bispos, em 2104 e 2015. Se há característica ímpar no Papa Francisco é a coerência dos seus actos. Desde que foi eleito sempre afirmou que «deseja dotar a Igreja Católica de uma “organização horizontal”, além da tradicional hierarquia vertical», já que a considera demasiado “vaticanocêntrica”. Não é, portanto, de estranhar que o Papa tenha enviado às comunidades este documento preparatório. Não é uma inovação, nem algo de novo, sempre que há um sínodo, mas, desta vez, é notória a atenção que a sociedade (crente ou não) tem dispensado ao documento. Até porque em julho deste ano o Papa Francisco tinha já lançado o desafio aos católicos – “Papa Francisco diz que católicos não devem temer reforma em estruturas da Igreja”, muito para além da polémica em torno do Banco do Vaticano ou da reforma da administração do Vaticano.
O Documento e o respectivo questionário não irão, por si só, alterar a doutrina dogmática da Igreja, nem os fundamentos canónicos existentes. E, apesar de todo o carisma deste Papa (inigualável após João XXIII) e duma clara mudança na visão da missão evangelizadora da Igreja, duvido que o Papa Francisco promova alterações ao catecismo católico vigente no próximo Sínodo dos Bispos. Mas há que louvar a atitude e a disponibilidade para ouvir as comunidades, as paróquias, os crentes, permitindo um claro alargamento de participação. Irão surgir, face à complexidade e polémica de algumas temáticas relacionadas com a família, pressões (lobys) de vários lados, com diferentes convicções e opiniões. Promover o debate e a reflexão conjunta só beneficiará o trabalho do Sínodo e melhorará a imagem da Igreja. Mas a questão poderá ser outra: estará a Igreja (desde a Cúria, ao Clero e aos fiéis) preparada para esse debate? Tomemos como ponto de partida esta afirmação do Papa Francisco, em Maio deste ano, a propósito da recusa de um pároco em baptizar a filha de uma mãe solteira: “Igreja não deve estar fechada aos pecadores”. Na homília numa Eucaristia celebrada na residência, em Santa Marta, o Papa Francisco, aludindo ao acontecimento, diria mais: “Isto não é zelo, isto é distância de Deus. Quando fazemos este caminho com esta atitude não estamos a ajudar o povo de Deus”, acrescentando que “Jesus instituiu sete sacramentos e, com este tipo de atitude, estamos a criar um oitavo, o sacramento da alfândega pastoral”.
Os desafios que a sociedade apresenta são, hoje, inúmeros e coloca a Igreja perante a necessidade urgente de encontrar novas respostas: a tipologia familiar (patriarcal, matriarcal, monoparental, homossexual); a sexualidade; a adopção; o aborto; o divórcio; o ‘recasamento’; os efeitos da emigração; a falta de emprego e a saída tardia (e o casamento tardio) dos filhos de casa dos pais; o papel dos avós; a realidade económica (desemprego, horários laborais, duplicação de empregos para fazer face às dificuldades financeiras domésticas); a igualdade de género (muito para além da abordagem ideológica que a Conferência Episcopal fez na semana passada); o papel da mulher na Igreja e na sociedade (incluindo a família); … . Muito para além da questão dogmática ou doutrinal. Ou, se preferirmos, também para além da questão dogmática ou doutrinal.
Caro Bispo D. António Francisco, pessoalmente, mais do que reconhecer ou definir o preceito do “pecado”, a Igreja deve repensar a forma como acolhe, inclui (em vez de excluir e rotular) e perdoa (por Cristo) os que pensam diferente, agem diferente, optam diferente, mas não se desviam de Deus ou caminham com e para Ele. Deve redefinir a forma como exclui (e remete para os últimos bancos das igrejas, capelas e catedrais, ou, simples e friamente, fecha as suas portas) os pecadores, os ‘rotulados’, os ‘diferentes’. Porque não pode um divorciado ou recasado comungar? Porque não pode uma mãe solteira baptizar o seu filho? Porque não pode um casal homossexual que adoptou, por amor, uma criança pretender que a mesma faça parte da comunidade cristã, baptizando-a, levando-a à catequese, possibilitando que cresça em Cristo (quantas vezes num ambiente familiar mais harmoniosos, pacífico, tolerante, com mais amor, que no caso de muitas famílias ‘normais’ que até vão à missa todos os domingos)? Que direito temos nós e tem a Igreja de julgar (substituindo Deus) uma mulher vítima de violência doméstica e que se divorciou, ou uma mulher vítima de violação e que abortou? Por acaso Jesus não se sentava à mesa com todos eles? Não era com eles que Jesus percorria todos os caminhos da Galileia e da Judeia?
D. António Francisco… Deus, a que tantas vezes nos referimos com Deus do Amor, teve, no acto da Criação, a maior prova de amor para com aqueles que criou à sua imagem e semelhança: a concessão da liberdade de opção de vida.
Na recente entrevista divulgada por várias revistas Jesuítas (entre as quais a portuguesa ‘Broteria’) o Papa Francisco critica o “moralismo” e o “legalismo” que dominam a Igreja, em vez desta se preocupar com colocar no centro da sua acção o Evangelho, sem andar obcecada com a homossexualidade, o divórcio e o aborto.
“Meu” caro Bispo D. António Francisco, a Igreja do sec. XXI não pode estar, como refere o Santo Padre, “amarrada” à sua história, porque a própria história da humanidade não é estanque mas sim dinâmica.
No ano em que celebra o cinquentenário do Concílio Vaticano II volto a formular a minha opinião, aliás por algumas vezes partilhada com o D. António Marcelino (principalmente aquando dos textos em que abordou o documento conciliar): o Concílio Vaticano II tem 50 anos, muito ficou por fazer e aplicar (por culpa da própria Igreja clerical e 'curiana’) e entretanto o mundo não deixou de “pular e avançar”.
Esta poderá ser a altura da Igreja se reformar, repensar a sua visão sobre o mundo e o Homem, aproveitar uma excelente oportunidade com este pontificado de ter um outro concílio. Repare, caro D. António Francisco, nas referências documentais que estão na introdução ao inquérito: a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (a Igreja no mundo actual) data de 1965 (48 anos); a Carta Encíclica “Humanae Vitae” (da Vida Humana) data de 1968 (45 anos); e até o papa João Paulo II, em 1981 (há 22 anos), na Exortação Apostólica “Familiaris Consortio” (a família cristã no mundo de hoje), já afirmava, na introdução, que a família “tem sido posta em questão pelas amplas, profundas e rápidas transformações da sociedade e da cultura”. Amplas, profundas e rápidas transformações que não pararam de “agitar” a sociedade e a vida de cada um de nós.
Na catequese semanal das audiências gerais de quarta-feira, no dia 16 de outubro, o Papa Francisco referia que “uma Igreja que se fecha no passado ou uma Igreja que se preocupa com o guardar das regras é uma Igreja que trai a própria identidade: apostólica”. Uma Igreja evangelizadora, aberta a TODOS os que procuram Deus, sempre
Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

No Vaticano nada de novo... (ou tudo).

A notícia, embora possa ‘chocar’, não traz novidade nenhuma, nem é surpresa para muitos.
É por demais sabido e discutido, por muitos criticado, o mundo secreto da Cúria do Vaticano, a complexidade e a teia dos corredores do poder na Igreja, o tráfico de influências e de capitais que circula para além das colunatas da Praça de S. Pedro.
Se recuarmos algumas décadas (1978), encontraremos eco desta realidade bem antiga, no desfecho do curtíssimo e polémico pontificado de João Paulo I. Apesar das inúmeras teorias da conspiração que normalmente acompanham estes processos, importa referenciar o trabalho de investigação (sem ficção) plasmado na obra “Em Nome de Deus”, do jornalista David Yallop.
Deste modo, quando olhamos para o título do Diário de Notícias, da edição do dia 13 de novembro, (“Procurador [italiano] adverte que máfia pode tentar matar o Papa”) nada nos surpreende, mesmo que possa causar alguma apreensão.
Olhando para o que tem sido, desde a sua eleição até à data, este pontificado do Papa Francisco, por mais estranho que possa parecer, não serão este tipo de “alarmes” que irão condicionar as acções e a forma de estar e ser do “Papa que veio do fim do mundo”.
Esta é a “imagem” do Papa Francisco, o Papa que, após João XXIII, tem todas as condições para marcar um pontificado único e um ponto de viragem na missão da Igreja no mundo. Não serão as “pressões externas” que demoverão o Jesuíta e até há pouco tempo Cardeal Jorge Mario Bergoglio dos seus objectivos. Mais receosas serão as "pressões internas"...

terça-feira, 12 de novembro de 2013

"Epístola" de um crente ao seu Bispo (3)

Porque a vida também se lê…
Caro D. António Francisco
Passado este 32º Domingo do Tempo Comum, o Evangelho lembrou-nos, na sua proposta litúrgica (Lc 20,27-38), o “mistério da nossa fé”: a morte e a Ressurreição. Deus olha-nos sempre pelo lado da vida, da eternidade (uma ‘nova vida’), da salvação, da Sua companhia e presença, do Seu Reino que não terá fim. E deverá ser nesta capacidade de nos envolvermos neste ‘mistério de fé’ que encontramos Deus e nos encontramos através de Deus. É pela condição de pecadores, de quem necessita e procura a salvação, que encontramos na Ressurreição uma ‘vida nova’, uma perspectiva renovada (em cada perdão) de caminho diário ao encontro dos outros e de Deus.
Nesta perspectiva, independentemente dos caminhos em comunidade e em comunhão, a fé (que só Deus consegue “medir”) é uma caminhada pessoal (mesmo que não isolada) numa relação directa do crente com (o ‘seu’) Deus.
Por isso só posso louvar a iniciativa do Papa Francisco em enviar à Igreja (clero, comunidades e cristãos) o documento preparatório (questionário) como base de trabalho para a próxima Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, em 2014.
Este documento, apesar de ligado às vivências da fé em família (deixarei a análise ao mesmo para outro tempo), coloca à Igreja novos desafios, novas realidades, um repensar de determinados dogmas e fundamentos sacramentais, do ponto de vista pessoal, de cada católico.
Há quem diga e defenda estoicamente que o documento não coloca em causa dogmas ou o sacramento do matrimónio, por exemplo. Mas a verdade é que os novos desafios que se colocam à família (nem todos negativos) têm a faculdade de colocar muitas e inquietantes interrogações aos cânones da Igreja.
Há quem afirme, de forma inabalável, que o “pecado” há-de continuar sempre “pecado”, não estando em causa o “pecador”. Em teoria, sim… Deus enviou-nos o Seu Filho para a salvação dos pecadores, dos que sofrem, dos injustiçados, dos excluídos. Mas também, pelo “mistério da fé” para a remissão dos pecados.
No entanto, não tem sido coerente e consistente o papel da Igreja (clero, comunidades e cristãos) em relação ao pecador. Só Deus pode “perdoar” e “julgar” (embora Deus, que é amor, tudo e a todos – os que assim o quiserem – perdoará e acolherá), não fazendo, por isso, qualquer sentido que a Igreja, as comunidades, os fiéis, sejam eles julgadores e juízes dos actos e dos pecadores. Infelizmente, é o que existe, de mais, na Igreja. A exclusão, o rótulo, a indiferença para os pecadores, os diferentes, as minorias, os “gentios”.
Por Cristo, com Cristo e em Cristo.

sábado, 2 de novembro de 2013

"Epístola" de um crente ao seu Bispo (2)

Porque a vida também se lê…
Caro D. António Francisco
Este 31º Domingo do Tempo Comum, na sua proposta litúrgica (Lc 19,1-10), apresenta-nos a dimensão plena de um Deus que todos ama, sem excluir ninguém, nem os pecadores, os marginais ou os “impuros”.
No Evangelho (Lc 19,1-10), através deste “encontro” com Zaqueu – pecador, homem injusto, explorador dos mais fracos e dos pobres, fiel seguidor do Império Romano e de César – Jesus revela-nos a verdadeira missão do Filho de Deus e o porquê da sua encarnação na Virgem Maria: Jesus veio até aos homens para os libertar através da salvação. A todos sem excepção, mas particularmente aos que mais precisam: os pecadores, os impuros, os doentes, os pobres.
E é neste princípio que Cristo, através de Pedro, alicerçou a Sua Igreja. Uma Igreja aberta a todos, para, no corpo e sangue de Cristo e no Mistério da nossa Fé (na morte e ressurreição), nos libertarmos e salvarmos.
Quererá isto significar que apenas os pecadores, os impuros, os doentes, os pobres, terão a salvação e serão “bem-aventurados” conforme nos indica o Sermão da Montanha (“Bem-aventuranças”)? Se Deus a todos ama porquê a diferenciação? Porquê e para quê a santidade, a caridade, o cumprimento dos mandamentos e da mensagem de Cristo? Será o “homem puro” menos importante para Deus que o “homem impuro e pecador”, já que enviou o Seu Filho para salvar os pecadores e ter misericórdia para com os que sofrem?
A resposta está no essencial do texto do Evangelho (”Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa”. Ele desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria.). A diferença não está na nossa condição ou comportamento humano mas sim na nossa capacidade para “acolhermos Deus”, com as nossas virtudes, defeitos e pecados, com a nossa rectidão ou impureza. Aliás, as Bem-aventuranças, proclamadas por Jesus no Sermão da Montanha, são disso exemplo: podemos ‘chorar ou rir’, sermos ‘pobres de espírito ou cultos’, ‘sermos humildes ou virtuosos’,  sermos ‘puros do coração ou pecadores como Zaqueu ou o Publicano da liturgia da semana passada’… nada fará sentido se não soubermos assumir, verdadeira e inteiramente, em plenitude, com coragem e frontalidade, Deus nas nossas vidas (Bem aventurados sereis, quando vos insultarem, vos perseguirem, e disserem, falsamente, toda a espécie de mal contra vós por causa de mim). Assim, de corpo e alma, contra tudo e contra todos. Hoje, contra todos os indicadores estatísticos, a diferença já não está no facto de se ser ateu ou agnóstico. A indiferença em relação a Deus e à Fé é muito maior e está mais presente na sociedade. Hoje, ser-se assumidamente cristão é ser-se minoria.
Por outro lado, que Igreja temos hoje como espelho desse amor de Deus para com todos, sem excepção? Temos uma Igreja de todos e para todos? Inclusiva e que não marginaliza? Justa? Equitativa? Com as portas abertas a pecadores e cumpridores, a impuros e justos, aos que sofrem e aos pobres e àqueles que não sentem (ou sentem menos) dificuldades na vida? Ou temos uma Igreja preocupada com os “Fariseus”, os “Escribas” e os “senhores das Leis”, relegando para segundo plano os publicanos, os cobradores de impostos, os pecadores?
Quantos de nós (Igreja) somos capazes de ter disponibilidade interior suficiente para, tal como Zaqueu, querermos subir a um ponto alto e “ver” Deus?
Precisamos de uma Igreja à “imagem e semelhança” deste amor de Deus que salva e liberta, acolhendo a todos de igual forma.

Por Cristo, com Cristo e em Cristo.